A primeira vez eu tinha oito anos
Minha avó tava lá, ela me salvou
A primeira relação abusiva que você tem
Sempre é em família...
A segunda vez foi o primo da minha amiga
Ela também me salvou
A terceira foi um copo, jogaram lança perfume
Ambulância
A quarta foi um desconhecido
Na rua da minha casa
Armado, me enfiou no carro
A quinta vez foi a polícia
E me perdi nas contas
Guardei tudo porque tinha vergonha
"Você tem que ser forte, você vai superar"
E depois ninguém nunca me perguntou
Se eu tava bem, se eu precisava de ajuda
De qualquer forma, vocês conseguem
Vocês conseguem nos matar por dentro
E, nos fazem acreditar que somos culpadas
Não sobrou muito de mim
Descobri que a primeira vez
Na verdade não foi a primeira
E que os abusos não são só físicos
Emocionais, persuasivos
Todos os homens em quem confiei
Me agrediram de alguma forma
Mesmo assim não quero generalizar
E nem posso fazê-lo
Não sou como vocês
Estou devastada, mas não me deixei consumir pelo monstro
Que é o ódio que eu sinto as vezes
Que me faz empunhar uma faca
E chorar querendo vingança
Procurando recuperar algo que preciso pra sobreviver
A inocência, a confiança, me sentir segura
Mesmo que quando sozinha
Eu me tornei um perigo apenas por não saber mais o que fazer com a minha vida
Sete anos pra me abrir
De que adianta falar?
Ninguém sentiu o que eu senti
Impotente, lixo, desprezo, solidão, dor
Uma dor que nunca mais foi embora
O vazio de estar apavorada o tempo todo
Não consigo confiar em nada, em ninguém
Meus pais não sabem quem eu sou
Meus amigos estão ocupados demais
Por minhas amigas temo, para que nunca passem o mesmo
E tampouco adianta, pois a cada dez mulheres que conheço
Nove já foram abusadas
E estão tão devastadas como eu
Antidepressivos me levaram ao CAPS
Tava magra demais
Acharam que eu era usuária de drogas
Que porra difere a tarja preta do crack?
O desespero é o mesmo
Eu só queria esquecer que existo
Porque carrego coisa demais na cabeça
Porque estou sempre exausta e sem vontade de fazer nada
Porque perdi dois anos da minha vida na cama
Porque perdi a esperança na minha existência
Porque as pessoas não ouviram os meus gritos
Ninguém me visitou.
Será que você me ama mesmo
Ou é só dependência química?
Já não entendo as necessidades
Já não me cabe ficar aqui
Esperando que algum dia isso tudo melhore, e que a ferida cicatrize
Se as coisas não saem do lugar
Quem precisa partir sou eu.
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