terça-feira, 20 de março de 2018


Cidade-cinzeiro
A poeira que sufoca
Vai e volta incessante
Geografia do local friamente calculada
Mirada ambígua
Se divide em dois estados
Sólido ou gasoso
Humanos sintéticos
Dirigindo os veículos
Trânsito de ideais
Chegou onde queria
E agora?
Máquinas que não dizem nada
Calor desistente dos corpos
Nenhum movimento orgânico
Só o caos organizado
Em muitas caixas por dia
A solidão é compartilhada
Em milhares de doses
Doses diárias divididas
Entre legal e ilegal
A droga e a drogaria
A mídia e o que diziam
Mataram seus sonhos
De liberdade indígena
O cinzeiro te sufoca
E a fumaça aqui
Não é só de brasa queimada
É de desespero no olhar
É de bala perdida
Que sempre acha um preto ou pobre
É de gente ferida
Que morre no descaso da sua sala
É da máquina quebrada
E da que funciona também
Funciona nas mãos do estado
Mira e acerta o alvo
Sempre selecionado
Entre etnia, classe social e gênero
Fingem não saber o porquê
Mas nós sabemos que é real
E que rasga a pele
Amacia
E deixa a carne mais barata.

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