quinta-feira, 15 de março de 2018

Há muito espaço físico, há embriaguez mental, onde todos os dias mais uma mulher negra morre na mão do estado. Mais uma mulher. Na mão do estado. As vidas, e na mão do estado contrações uterinas, dando margem pro feminicidio diário, sustentando a ideia de que nossa vida não importa, tampouco será vingada, tampouco será esquecida. E nessa história morre também a esperança, morrem também as indígenas, ressaltando, somos filhas do estupro, e não duvida-se que agora também o oprimido é um reflexo, torna-se, pela raiva e descaso o próprio opressor, agredindo seus irmãos e irmãs. Move-se a roda, as engrenagens estão borradas de sangue, dando pau toda hora, dando pau toda hora, sem consenso, coagindo, agredindo e matando sufocado nossos sentimentos e sonho de equidade. Medo e agonia restaram.
Essa noite novamente me veio o pesadelo, ele tinha formato ímpar, era um homem robusto, não media consequências, assim como aquele que matou um pouco de mim em 2013 e, na realidade não pude fazer nada além de sentir a morte escorrer quente em meu corpo de formato par, mulher. Já no pesadelo, descontei minha revolta, me defendi com uma faca e o castrei da existência por vingança. Eles me pedem calma, foi só um sonho ruim não é mesmo? Gostaria de poder afirmar. Mas todo dia é a mesma coisa, e dia 19 de janeiro de 2018, cinco anos depois de tantos ataques de pânico, fui no judiciário, mesmo assim me pedem para que não caia no desespero, afinal, poderia ser no IML, assim como foi para outra irmã hoje,  agora ela já não pode sentir nada, eles disseram, "está salva", e morta pelas mãos do estado. Afeta um pouco de cada uma, e não sabemos o que sentir. Não é novidade que a polícia mata, principalmente se sua cor não for branca, principalmente se puxarem o seu CEP, principalmente se você for "minoria". Sim, estamos em estado de desespero. Não, não ficaremos à margem.

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